“A sensação é de que o agressor conta com a impunidade”, diz advogada. Foto: Ilustrativa
Santa Catarina encerrou a primeira semana de julho com o registro de cinco assassinatos brutais de mulheres — todos com características de feminicídio. Giovanna Schmidhauser, Rosemary Martins, Tatiane Kurth Cipriani, Sandra Raquel Nolli e uma mãe ainda não identificada foram mortas entre a última terça-feira (29) e o sábado (2). A sequência, em diferentes regiões do Estado, acendeu o alerta de especialistas e trouxe à tona o que já é uma dura realidade: o avanço da violência de gênero e a ineficiência do Estado em conter esse ciclo.
A jovem Giovanna Schmidhauser, de 23 anos, foi a quinta vítima da semana. Ela foi assassinada com um tiro no tórax durante uma festa em Bombinhas, no Litoral Norte, na manhã de sexta-feira (1º). O autor do disparo foi Kayk Maciel dos Santos, de 18 anos, também morador de Itajaí. Segundo testemunhas, os dois não se conheciam e o encontro ocorreu após uma festa em Porto Belo.
O tiro foi disparado com uma arma de fabricação caseira, supostamente em tom de “brincadeira”, quando Kayk apontava o armamento para as jovens no apartamento. Ele havia feito uso de drogas. O disparo atingiu Giovanna no peito por volta das 4h30. O socorro foi acionado imediatamente, mas o SAMU só chegou às 6h30 — quase duas horas depois. Giovanna não resistiu. O suspeito fugiu dizendo “matei a mina”, roubou uma moto e abandonou o veículo em via pública. Segue foragido.
Para a advogada Tammy Fortunato, presidente da Comissão Nacional de Combate à Violência Doméstica da OAB, os casos demonstram o avanço da violência contra a mulher, apesar da pena alta prevista para o crime de feminicídio. “Estamos vivenciando a consumação das tentativas que vêm sendo denunciadas. A pena de 40 anos não intimida o agressor, porque ele age acreditando na impunidade”, afirma.
Segundo o Anuário de Segurança Pública de 2025, só neste ano Santa Catarina já registrou 196 tentativas de feminicídio.
Uma tragédia após a outra
Na terça-feira (29), Rosemary Martins foi encontrada morta no sofá de casa, em Penha, após ser esfaqueada pelo companheiro. Segundo a polícia, o crime teria ocorrido no domingo, quando a vítima enviou mensagem à filha relatando que havia descoberto uma traição e que o relacionamento havia terminado. O assassino foi preso em São José. Ele tem histórico de violência contra outras três mulheres.
Na quarta-feira (30), Tatiane Kurth Cipriani foi assassinada dentro de casa, em Rodeio, pelo marido. Ele enviou uma foto do corpo dela ao cunhado e depois atirou contra si. Chegou a ser socorrido, mas morreu no hospital. O casal era casado desde 2021 e não tinha filhos.
Na quinta-feira (31), Sandra Raquel Nolli foi morta a tiros pelo ex-companheiro, em Rio do Sul. Ele fugiu e foi preso em Pato Branco, no Paraná.
No sábado (2), em Florianópolis, um homem de 24 anos matou a própria mãe a facadas enquanto ela dormia. Foi ele mesmo quem ligou para a polícia informando o crime. A vítima, de 61 anos, ainda não teve o nome divulgado oficialmente.
Repetição do ciclo e omissão do poder público
Todos os casos têm em comum o cenário de violência doméstica ou o desrespeito à vida da mulher — muitas vezes dentro de casa, nas relações afetivas ou com o uso de armas de fogo e facas. A reincidência de agressores e a falta de respostas do sistema de proteção à mulher também são pontos em destaque.
Para especialistas, a sensação de impunidade e a ausência de ações efetivas de prevenção são combustíveis para tragédias anunciadas. Mesmo com leis específicas, campanhas e canais de denúncia, a violência de gênero segue crescendo — e as vítimas continuam morrendo.
“As mulheres seguem sendo assassinadas em silêncio, enquanto os agressores agem com a certeza de que não serão punidos”, alerta Tammy Fortunato.
VEJA QUEM SÃO ELAS:
Sandra Raquel Nolli foi morta a tiros pelo ex-companheiro, em Rio do Sul.
Tatiane Kurth Cipriani foi assassinada dentro de casa, em Rodeio, pelo marido.
Rosemary Martins foi encontrada morta no sofá de casa, em Penha, após ser esfaqueada pelo companheiro.
A jovem Giovanna Schmidhauser, de 23 anos, foi a quinta vítima da semana. Ela foi assassinada com um tiro no tórax durante uma festa em Bombinhas.